Sustentabilidade tinge mundo da moda

Sustentabilidade tinge mundo da moda

Escrito em 13/05/2019
AlunosJOR Jornalismo UFSC

Fashion Revolution traz reflexões sobre o modo de produção e confecção de roupas



Se as etiquetas das nossas roupas pudessem contar uma história, ela teria início, meio e fim: começaria com as matérias-primas utilizadas na confecção do tecido, passaria pelo processo de produção industrial ou artesanal, chegaria às mãos do consumidor e, por fim, seria descartada de alguma forma. A indústria têxtil é a segunda maior poluidora do mundo e o Brasil é o quinto maior produtor neste setor, segundo dados da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (ABIT). Além dos impactos ambientais, o desabamento do edifício Rana Plaza, que matou 1133 trabalhadores têxteis em Bangladesh no dia 24 de abril de 2013, levantou a questão sobre os verdadeiros custos do fast fashion, padrão de produção e consumo acelerado no qual os produtos são fabricados, consumidos e descartados de forma rápida. Para que este episódio não fosse esquecido, o movimento global de moda sustentável Fashion Revolution acontece anualmente em 92 países no mês de abril com o intuito de conscientizar profissionais do ramo, estudantes e consumidores. Florianópolis foi umas das 30 cidades brasileiras a participar da semana e contou com mesas redondas sobre novas formas de fazer moda, oficinas de consertos, customização e tingimento, exposições fotográficas, troca de roupas e lançamento de um banco de tecidos para reaproveitar os resíduos têxteis.

O questionamento “Quem fez as minhas roupas?”, serviu como ponto de partida para os temas da programação. Para a designer de moda Roberta Kremer, a mudança dos padrões de consumo na moda deve ter a mesma importância que damos à alimentação. “Eu acho que essa pergunta é essencial para você começar a ter esse olhar crítico. Por exemplo, quando o alimento é barato, provavelmente está perto da data de vencimento ou tem algum defeito. Mas na roupa a gente ainda ignora um pouco isso”, diz. A preocupação é ambiental e social, já que a sustentabilidade deve ser aplicada em todas as etapas da produção, desde o agricultor que cultivou o algodão para a confecção do tecido até os impactos gerados pelo descarte daquele material.

Os beneficiamentos e tingimentos têxteis correspondem a cerca de 20% da poluição de água potável no mundo, segundo o estudo da agência Ethical Fashion. Além do desperdício de água, o uso de substâncias tóxicas a partir de derivados do petróleo e do carvão mineral não é nociva apenas para o meio ambiente. Em alguns casos, estas substâncias podem ser liberadas ao longo do tempo, através do uso e da lavagem de roupas que tenham passado por este processo e causar danos à saúde. Para quem trabalha com o tingimento artesanal e possui um contato mais direto com os químicos este problema pode ser sentido na pele. Roberta diz que os efeitos dos tóxicos chegaram a alterar seu paladar na época em que trabalhava com o método de tie-dye sintético.“Eu acredito que o tingimento é uma experiência bastante sensorial, porque você mexe com olfato, com as mãos, com o visual, enfim, o toque. Através das minhas sensações que eu parei pra pensar na toxidade da coisa”.

A alternativa que Roberta encontrou para continuar trabalhando de forma mais ecológica e saudável foi o método natural de tingimento que utiliza matéria-prima de origem vegetal. Como parte da programação do Fashion Revolution Day, ela ofereceu uma oficina sobre a técnica japonesa Shibori, que utiliza cascas de cebolas para a obtenção de um tom laranja-amarronzado. Ainda que não resolva completamente a questão do desperdício — para 1kg de tecido utiliza-se de 18 a 30 litros de água –, a qualidade e durabilidade da cor são vantagens deste método. Da mesma forma em que é possível tingir naturalmente de maneira artesanal, também pode ser feito industrialmente em média e larga escala. No Brasil, a Etno Botânica & Studio InBlueBrazil, da designer têxtil Leka Oliveira e de Eber Lopes Ferreira atendem a demanda do mercado de empresas que atuam no setor sustentável desde 2008.



Antes da consolidação do modelo fast fashion na década de 90, as marcas lançavam a coleção de acordo com a estação: outono/inverno e primavera/verão. Atualmente, são aproximadamente 52 coleções que chegam às lojas todos os anos. Segundo a consultora de moda Aline França, este ciclo gera uma ansiedade generalizada em que o consumo de moda torna-se descartável. A oficina Armário Cápsula é uma ferramenta estratégica para que as pessoas pensem no seu guarda-roupa de forma a conhecerem melhor o seu estilo e evitar excessos e frustrações. O método consiste em escolher uma quantidade de peças para vestir durante um determinado período de tempo, como por exemplo 33 peças, incluindo roupas, acessórios, jóias e calçados durante 3 meses. “Você começa a ser mais seletiva. Sendo mais seletiva, você olha para o que a moda te direciona, mas começa a peneirar. Você peneirando isso, gasta menos e sobra mais dinheiro para você ter uma qualidade de vida melhor. Então isso gera menos frustração, menos desconforto e menos lixo, consequentemente”.

Outro problema causado pela indústria da moda é o descarte inadequado de resíduos têxteis em aterros sanitários. No Brasil, a estimativa é que 175 mil toneladas de retalhos sejam descartadas anualmente. Desse total, somente 36 mil toneladas são reaproveitadas pela indústria na produção de barbantes, fios e novas peças de roupas. Como alternativa sustentável para a reutilização destes materiais, a cenógrafa e figurinista Lu Bueno criou o Banco de Tecido, um sistema inclusivo e circular onde as pessoas depositam os seus tecidos, tornam-se correntistas e recebem um crédito em peso para retirar outros tipos de tecidos, ou simplesmente comprálos. O lançamento de uma unidade do Banco de Tecido ocorreu durante a Fashion Revolution Week, no espaço compartilhado de moda, arte e design LONA Criativa, no Estreito.

Uma maneira criativa para praticar o slow fashion é o upcycling, uma forma de reaproveitar algo sem valor comercial que seria jogado fora e transformá-lo em algo novo. A designer de moda Fernanda Alface viu no upcycling uma possibilidade de passar uma mensagem sobre preservação ambiental ao dar uma segunda chance para roupas que seriam descartadas. O jeans antigo é desconstruído e vira material para a confecção de brincos ou patchwork para customizar outras peças, a tesoura transforma a saia antiga em uma nova blusa e uma camisa branca vira um manifesto com frases do tipo “menos compra, mais troca” pintadas à mão.

Por Aline Dallarosa