O que é o antirracismo?

O que é o antirracismo?

Escrito em 13/05/2019
AlunosJOR Jornalismo UFSC

Mais do que só apontar as questões do racismo, é preciso entender e mostrar o que é o movimento antirracista

Por Letícia Silva, Luísa Michels e Maria Heloísa Vieira


 

Para falar sobre racismo, é preciso voltar mais de 300 anos da história e resgatar tudo o que antecedeu e construiu um dos preconceitos que mais mata, não só no Brasil, mas no mundo. Para entender o racismo é preciso antes disso, saber que a história dos negros não começa no período da escravidão. Tudo o que aprendemos no Ensino Fundamental e Médio, precisa ser deixado de lado para olharmos a história que muitos livros não contam.

O Continente Africano é o berço da humanidade. Apesar de haver pessoas que acreditam que a história do povo negro se iniciou a partir do seu deslocamento para a Europa e também no período em que começaram a ser escravizados no mundo, é importante frisar que nada começou assim. Na África, civilizações já existiam. Foram nesses reinos, com sistemas administrativos próprios e organização, que começaram a existir as primeiras civilizações.

Quando alguém erroneamente defende os europeus do processo escravista ocorrido entre os séculos XV e XVIII dizendo que “os africanos escravizavam os inimigos, que eram os próprios africanos de outras tribos!”, ele está cometendo dois erros: o primeiro é defender ou tentar justificar a escravidão, e o segundo é desconhecer a escravidão que ocorria dentro do continente africano entre as tribos que porventura guerreavam. (Historiazine)

Outro fato que é comumente distorcido, são as histórias de escravidão entre as pessoas negras. Na verdade o que acontecia, era uma batalha onde a pessoa que perdia, teria que se mudar para a tribo vencedora, tornando-se um trabalhador e cumprindo o papel de protegê-la dali em diante. Apesar disso, eles não perdiam os seus direitos, não eram agredidos e podiam até se casar com alguém da tribo.

Diferente disso, desde que chegaram ao Brasil, os negros tiveram todos seus direitos retirados e foram obrigados a viver em condições desumanas, para que pudessem sobreviver. Mesmo após a abolição da escravatura, o racismo continua sendo um dos problemas estruturais da sociedade. Os negros são os que mais morrem e os que mais são criminalizados. As mulheres negras, são as que mais sofrem violência doméstica, têm seus corpos sexualizados e em relação à trabalho, quando conseguem um, recebem uma péssima remuneração para exercer um trabalho árduo.

E é comum ao falar sobre racismo, pensar apenas nas pessoas negras, em situações que podem acontecer e em suas lutas diárias para combatê-lo. Mas e as pessoas brancas? Qual o papel delas nesse debate?

A constituição do racismo, vem de pessoas brancas. Entendo-as como causadoras desse problema, é importante destacar que, nem todas elas são racistas. A prova disso é a existência dos grupos antirracistas, que começaram a se formar nos Estados Unidos, e hoje, podem ser encontrados no Brasil. Estes grupos, têm como objetivo se opor ao racismo e ir contra um sistema que privilegia as pessoas de pele branca. Além disso, reconhecem e lutam em conjunto com os movimentos negros a favor de políticas públicas e ações que facilitem a inserção da pessoa negra em locais que ela ainda não ocupa.

Dito isso e entendendo que a luta antirracista se propõe a tratar o problema a partir de uma perspectiva diferente do que a que geralmente é dada, é preciso observar outras concepções importantes para entender o papel essencial que as pessoas brancas (e negras não muito engajadas) têm para a diminuição desse sistema desigual. Mas como identificar estes problemas para assim combatê-los, ainda mais se tratando de situações que as pessoas brancas não passam?

 


Tudo isso é crime!

Em 2016, o casal Giovanna Ewbank e Bruno Gagliasso adotaram Titi (apelido pelo qual é conhecida), uma criança nascida na República de Malawi, no Continente Africano. Pela internet, Day McCarthy, de nome verdadeiro Daiane Lopes, tida como socialite pela imprensa, fez um vídeo usando atributos de cor e traços físicos para ofender a menina, evidenciando uma contradição na família formada por pais brancos e filha negra.

Esse caso, pode ser entendido como injúria racial. No Brasil, a injúria é considerada crime inafiançável, com pena de reclusão entre um e três anos mais multa. Mas, infelizmente, poucos casos chegam a ser efetivos no país apesar do aumento nos registros desses eventos. De acordo com a reportagem do portal G1, só no Distrito Federal, entre janeiro e julho de 2018, as ocorrências cresceram em 3,5%.



Em São Paulo, João Gilberto Lima, aluno da Fundação Getúlio Vargas teve sua imagem exposta em um grupo de estudantes da instituição no What'sApp, com a mensagem: “Achei esse escravo no fumódromo. Quem for o dono, avisa!”. Segundo a delegada responsável pela investigação, a ação pode ser considerada como injúria racial e também como racismo. Mas onde está a diferença?

Especificamente nessa situação, o uso das redes sociais para a disseminação de conteúdo preconceituoso, agrava o crime de injúria racial para racismo. De maneira mais clara, o racismo se manifesta quando a ofensa ou ação é direcionada à comunidade negra, não a um único indivíduo.

Sabendo que o período de escravatura prejudicou e iniciou uma cultura de desigualdade racial, ao vincular a imagem de uma pessoa com esse período, é cometer um crime de racismo. Previsto na lei nº 7.716, o racismo também é um crime inafiançável e imprescritível, o que quer dizer que não há direito à reclamações por parte do réu.

Os debates em torno do que é injúria racial e do que é racismo são bastante comuns. Segundo a professora Leslie Sedrez Chaves, do Departamento de Jornalismo e pesquisadora na área de identidade étnica e movimentos sociais negros, a diferenciação entre racismo e injúria racial é feita sob o seguintes critérios: é caracterizado o crime de racismo quando uma pessoa negra é impedida de entrar em algum lugar, e se categoriza como um crime inafiançável; já a injúria racial, que é um crime afiançável, se aplica quando há ofensas verbais relacionadas a cor da pele.

Para a identificação, punição e principalmente para o combate desses crimes, é preciso que se tenha um conhecimento básico sobre o assunto, e também, o interesse de se envolver em problemas que muitas vezes não são seus.

Os grupos antirracistas têm esse viés de buscar o conhecimento neles mesmos, olhando para suas questões próprias, assumindo seus privilégios e procurando formas de tornar a sociedade, um local menos desigual para as pessoas que por muitos anos não tinham nem sua liberdade como direito e que hoje lutam para conquistar o que lhes foi negado no passado.

O sul é para os negros?

O Brasil é um país marcado pela colonização européia, depois daquilo que chamam de descoberta (desconsiderando a existência dos índios no país). Portugueses, italianos, espanhóis, alemães, franceses. Todas essas civilizações aproveitaram o local sem marcas de modificação para o transformar naquilo que já estavam acostumados a ver e viver em seus países.

A região sul do país foi principalmente ocupada por imigrantes alemães e italianos. Tendo em vista esse aspecto, é possível afirmar que as famílias mais antigas, carregam um pouco dessa tradição que nem sempre se demonstra de maneira positiva.

Santa Catarina está no 27° lugar do ranking dos Estados brasileiros mais perigosos para os negros viverem, segundo uma reportagem da Exame. O estado também é lembrado quando o assunto são os simpatizantes do nazismo: o estado catarinense está em sexto lugar, com cerca de 45.000 pessoas que compartilham desses ideais.

Indo contra estes dados, um grupo de estudos críticos da branquitude do Laboratório de Estudos de Gênero e História, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), tem encontros quinzenais para discutir o papel do branco e suas responsabilidades com a criminalização do racismo. Renata Schlickmann é coordenadora do grupo e conta com o apoio de Lia Vainer Schucman, que possuem muitas pesquisas sobre o assunto. O grupo é recente, mas vem de uma ideia da professora Lia, que tinha um projeto similar, o Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros (NEAB), entre 2013 e 2015, na Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC), que foi o precursor.

 


As atividades do grupo consistem em discussões para a reflexão e trocas de informações sobre o assunto, considerando as diversas visões e diferentes áreas de atuação dos membros do grupo.

YELLOW PERIL SUPPORTS BLACK POWER

Pouco se sabe, mas Malcom X, importante liderança do movimento negro nos Estados Unidos durante a década de 1950 e 1960, tinha uma parceira de descendência asiática. Yuri Kochiyama nasceu na Califórnia, numa colônia para imigrantes japoneses no Estado. Sua vida foi dedicada à militância a favor das minorias não-brancas e classe trabalhadora.

Influenciados por esses movimentos, existem hoje no Brasil, grupos de militância amarela que estão unidos ao movimento negro e antirracista para combater a desigualdade entre as raças no país. O coletivo Perigo Amarelo, por exemplo, existe já a alguns anos e é responsável pela capa “Yellow Peril Supports Black Power”, que em tradução diz que o perigo amarelo ajuda, apoia o poder negro.



Esses movimentos antirracistas trazem à tona a importância da luta contra a segregação e asupremacia branca. Entender que para combater o racismo, é preciso olhar para todos os fatores, não só para o negro. O agente do racismo é o branco, e a partir do momento em que as pessoas assumirem isso, criticando e analisando o seu papel em um país que é racista, para que futuramente ocorram mudanças. Enquanto as pessoas não pararem de confundir o médico de um hospital com um faxineiro, cotas raciais serão necessárias.