Cinemas manezinhos: uma história

Cinemas manezinhos: uma história

Escrito em 13/05/2019
AlunosJOR Jornalismo UFSC


 

Por Gabriel Volinger, Gastón Valsangiacomo, Giovanni Vellozo e Pedro Bermond Valls

Das exibições em filme para os projetores digitais. Como Florianópolis viveu tudo isso? Como a ilha vive o Cinema hoje? Onde estão os cinéfilos? Confira nesta reportagem especial divida em três partes
 



A fila para o Cine Odeon já virava a esquina. Tomando a frente, os moleques se aglomeravam para trocar os gibis. “Eu tenho um do Tex aqui”, a voz do menino ecoava até o final da fila onde senhoras e senhores aguardavam o início do espetáculo. Vestidos com suas melhores roupas, os habitantes de Florianópolis esperavam as exibições de cinema logo no início das tardes de domingo. Um filme atrás do outro, depois a série cinematográfica que chamava para um próximo domingo de entretenimento. Nas poltronas, um errinho na troca das fitas pelo projecionista e os espectadores batiam fervorosamente o pé no chão. Eram exigentes. Só sairiam do cinema quando o sol estivesse morrendo.

A imagem remonta os anos 50 e 60 em Florianópolis, quando os cinemas de rua (fora dos shoppings centers) se espalhavam pelas ruas da cidade. Uma cultura guardada na memória de muitos cinéfilos florianopolitanos, mas que já não se vive mais na cidade, que concentra a maioria de suas salas de cinema nos Shoppings. E, mesmo a parcela pequena de cinemas alternativos da ilha, usam os projetores digitais para levar às telas os mais recentes lançamentos,

Voltamos alguns fotogramas para resgatar esta história e projetar com exclusividade aqui no Portal Tu Dix?!, através desta reportagem dividida em três partes.

Boa leitura.
 



Há uma dificuldade em sistematizar a história dos cinemas da capital, e isso se deve a escassez de trabalhos específicos sobre as exibições e atividades desses espaços. Um dos mais recentes livros sobre essa época é o Cinemas (de Rua) de Florianópolis, do engenheiro e pintor Átila Ramos, 73. O trabalho consiste em uma cronologia dos cinemas da cidade, acompanhada de suas pinturas e imagens de anúncios e cartazes da época.

A motivação para a pesquisa surgiu a partir de uma exposição com algumas pinturas suas dos cinemas de rua da segunda metade do século 20, já de filmes sonoros. “Aí eu fui na Biblioteca Pública do Estado pegar uns dados para completar os dados dos cinemas”, conta o pintor, “e dei de cara com outros cinemas, e fiquei, ‘po, nunca ouvi falar nisso’. E percebi que tem uma história que estava coberta, ainda está”. Para o livro, Átila usou materiais dos jornais e de bibliografia sobre a história do cinema em Santa Catarina e no Brasil. Ele mesmo reconhece que não é algo definitivo, justamente porque toda a pesquisa se limita a dados mais gerais, sem depoimentos ou uma profundidade sobre as atividades das salas. “Esse meu livro, ele abre caminho”, explica.



Átlia Ramos, com imagem do Cine Roxy
(Foto: Giovanni Vellozo)


​Caminho esse que trilha uma outra pesquisa, ainda não publicada, feita por Osni Machado, 76. O “s
eu” Nini, como é conhecido, é pesquisador autodidata, e foi lanterninha e projecionista do Cine Rajá em São José entre 1954 e 1966, mas mesmo fora do trabalho continuou frequentando os espaços por lá e na capital. Trabalhou também fazendo cartazes a partir das fotografias enviadas pelas distribuidoras de filmes. “O caminho que o Átila fez nas bibliotecas foi o mesmo que eu fiz também e ele sintetizou”, coloca Osni, explicando também: “a minha ideia é maior”.

É maior porque, para a pesquisa dele, não basta saber como começaram os cinemas em sua cidade e na capital. “De cada cinema eu vou fazer um bloco com tudo o que aconteceu lá. Inaugurado em tal data, em tal dia fechou, pra trocar a lanterna do projetor, reabriu com a lanterna nova, fechou pra colocar cinemascope, exibiu o primeiro filme…” Para isso, ele foi fichando as partes escaneadas e recortadas de jornais coletados desde o início do século passado, e a partir disso montou planilhas no computador. Além da falta de registros, Osni tem que lutar contra a própria deterioração do material, incluindo a de seu próprio acervo, com pedaços de filmes que se cortam facilmente e cartazes que estão se rasgando com a umidade. Persiste, contudo. Sua ideia é um dia também publicar esses registros em livro.

 


Pesquisador autodidata, Osni guarda cartazes e materiais sobre história do Cinema em São José e na Capital
(Foto: Gabriel Volinger)

Primeiras exibições

Conforme a pesquisa de Ramos, o cinema em Florianópolis não surge isolado. Ele aparece em conjunto com modificações de infraestrutura, na chamada Belle Époque (1871–1914), uma época de reformas de higienização urbana e da crença do saber científico como guia do progresso da humanidade. No governo de Gustavo Richard (1906–1910), vieram as primeiras obras de saneamento e tubulação em 1909, a primeira lâmpada elétrica residencial acesa e as primeiras propostas de uma ligação via estradas entre Ilha e Continente — que só aconteceria na década de 20.

Comparando com as primeiras exibições cinematográficas no mundo, feitas na última década do século 19 — a dos Irmãos Lumiére data de 1895 -, até que a coisa começou cedo por aqui. 21 de julho de 1900 foi o dia da primeira em Florianópolis, feita de forma improvisada no Teatro Álvaro de Carvalho pelo exibidor H. Kaurt, que percorria o sul do país com seu cinematógrafo. Pouco se sabe de quais foram os aparelhos usados, bem como dos procedimentos dos “quadros ilusionistas”, como foram anunciadas as exibições. Sabe-se, porém, que partir dela, uma série de exibições pontuais começaria no centro da capital, no próprio TAC e em casas de famílias abastadas, com uma difusão do cinematógrafo nesses círculos sociais.


Quem acompanha o cinema por tanto tempo sabe das suas histórias, peculiaridades, mudanças e características. Através de entrevistas com Gilberto Gerlach, Osni Machado e Átila Ramos, neste vídeo exclusivo do TuDix?!, você acompanha um pouco desta jornada em Florianópolis e no mundo.



​No início do século, normalmente não havia longas-metragens. “Geralmente passavam filmezinhos de 20 minutos. Cenas gerais, de Paris, das cidades. Não havia uma sequência definida dentro das obras”, pontua Ramos. No início, as exibições eram nas casas de famílias mais abastadas. Quando havia salas específicas para tanto, eram basicamente teatros, com o telão disposto ao fundo do palco. E o palco, por sua vez, dava espaço para um outro recurso além da tela: as orquestras ou big-bands. O cinema-mudo era todo animado pelo som delas, com trilhas sonoras que complementavam a história contada na tela e também com efeitos sonoros variados.

Em 1909, a cidade teria seus dois marcos de exibição cinematográfica. O primeiro foi o Parque Catharinense, inaugurado em 18 de fevereiro onde hoje é o cruzamento entre as ruas Esteves Júnior e Vidal Ramos. Propriedade do empresário Julio Moura, o espaço no Centro ficou famoso por ter atrações culturais variadas, dentre elas o próprio Cinema, com exibições esporádicas num coreto que se chamou Theatrinho Conselheiro Mafra.

O segundo marco foi o primeiro cinema de rua da capital. Era o Cassino, criado pelo comerciante Paschoal Simone, dono da empresa Sylla. O cinema abriu as portas em 9 de Julho, com exibições acompanhadas da banda-orquestra 6 Bemóis. Na década seguinte, a expansão: com o advento da energia elétrica, surgiram cada vez mais salas na Ilha de Desterro, a maioria idealizado por empresários, algumas financiadas pela Igreja Católica. Alguns exemplos foram o “Art-Nouveaux” em 1910, o Círculo de Cinema Católico em 1912, “Cinema Variedades” em 1916.

A maior parte dos registros que existem dessas primeiras exibições estão nos jornais da época, como O Estado e A República, que traziam anúncios e notícias sobre as sessões e inaugurações. Algumas bem inusitadas, lembra Osni, como “umas lá reclamando das senhoras que usavam chapéu, que não dava pra ver nada na tela, ou sujeira no chão, cachorro no cinema, com pulgas”. Os filmes mais famosos, como o seriado O Misterioso Dr. Fu Manchu, em 1930, também ocupavam bom espaço em anúncios. Mas apesar dessa publicidade, pesquisar pelos jornais tem suas dificuldades. Na pesquisa de Átila Ramos, “às vezes a coisa não fecha com a outra, é um trabalho de garimpo. Os jornais já tão muito velhos, e nunca tá na ordem que a gente quer”.



Pinturas de Átila Ramos sobre os dois primeiros cinemas da Ilha: o Cassino, de 1909; e o Art-Noveaux, que funcionou no TAC entre 1910 e 1916

(Foto: Divulgação)

 

Solta o som

O fim da década de 1920 é um momento de ruptura. Em Florianópolis, foi construída em 1926 a histórica Ponte Hercílio Luz, que resolvia na época as complicações no acesso à Ilha, vindo junto a outras reformas na infraestrutura da cidade. E no mundo da sétima arte, o som começa a vir junto das telonas a partir de 1927, com o filme estadunidense O Cantor de Jazz (The Jazz Singer), estrelado por Al Johnson.

Contudo, essa novidade ainda demoraria quatro anos para chegar a Florianópolis. Apenas em maio de 1931, foi inaugurado o Cine Palace, do empresário Paulo Schlemper, que estreou a nova modalidade sonora com o musical Alvorada do Amor (The Love Parade, 1929, de Ernst Lubitsch). E mesmo assim, não foi uma ruptura imediata: os cinemas mudos que já existiam, como o Variedades, o Internacional, o Ideal e o Ponto Chic, continuavam a sua atuação, pouco a pouco se atualizando em relação aos demais.

Com a atualização, vem a maior popularidade. Nesse período, a demanda pela sétima arte estava grande em Florianópolis, sendo a década de trinta um período de expansão das salas. Nesse período, foram criados os Cinemas Glória em 1932 (depois Imperial), e o Cine Royal no TAC. Um marco desse período é o Cinema Rex, inaugurado em 1935 com uma propaganda surpreendente: a de um cinema de luxo, 700 lugares, que incorporava mobiliário moderno e um bar estilo parisiense.

No entanto, todo este cenário de glória foi varrido momentaneamente com o Estado Novo de Getúlio Vargas (1937–1945) e seu controle via Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP). Sobram nessa época apenas três casas: o Rex, Royal e Odeon. A Segunda Guerra Mundial agrava ainda mais a situação, já que o transporte dos filmes por navio — à época, Florianópolis ainda era uma cidade portuária -, feito majoritariamente pela companhia Hoepcke ficou estagnada.

Novo Impulso

Com o fim da guerra se aproximando, os cinemas de rua em Florianópolis começam o seu período de maior expansão. Em 1943, o luxuoso Cine Rex fecha e dá espaço, literalmente, para o Ritz, que viria a se tornar um dos mais prestigiados nomes da história dos cinemas florianopolitanos. A inauguração do cinema, de propriedade do empresário Jorge Daux, ocorre em 15 de abril, com o filme estadunidense Lydia.

Outras salas começaram a ser consolidadas na região central. Nesse período, a Família Daux assume as concessões de projeções de Cinema em fitas de 35mm das principais distribuidoras da época. É deles o Roxy, inaugurado em 1944 no mesmo espaço anexo à Catedral onde funcionaram o Cine Centro Popular e o Odeon. A novidade acabaria por se tornar um sucesso de público, com sessões a partir das 14h.

Além do Ritz e do Roxy, o grupo empresarial também abriu mais salas na ilha em pouco mais de duas décadas. A primeira foi em julho de 1954: o Cine São José, em frente ao Cine Roxy. Foi anunciado como "o melhor cinema do sul do Brasil, nem São Paulo tinha aquilo" afirma Osni, — "embora eu acredito que tivesse, aqueles palácios de cinema dos anos 20”. De fato havia luxo: era um cinema com aproximadamente mil poltronas, iluminação de ponta e pinturas em alto relevo feitas por Franklin Cascaes nas paredes. Em 1975, seria a vez do Cine Cecomtur, feito em anexo ao projeto de hotel. Ambos os espaços foram tidos como os mais luxuosos de suas respectivas gerações, com preços mais caros e exigência de traje social.

 



‘Seu’ Osni exibe um dos recortes dos jornais antigos, anunciando o Cine Central de Darci Costa. O ano do registro é 1959

(Foto: Gabriel Volinger)​

Mas nem só de grandes salas viveu Florianópolis.

Em 1959, Darci Costa, jornalista aficionado por cinemas desde a juventude, alugou o andar superior da Confeitaria Chiquinho — onde hoje é a Livrarias Catarinense da Felipe Schmidt — e lá estabeleceu o Cine Central. Segundo os registros de Osni, o Central foi inaugurado com a exibição de 'Os Sete Samurais', de Akira Kurosawa. A sua projeção feita em filmes de 16mm acabou por desafiar a concorrência dos principais cinemas da capital, que exibiam apenas pacotes comprados com fitas de 35mm, padrão da indústria. Sem muitos recursos diante das demais salas, o Central encerrou atividades em março de 1960. Mas Darci não desistiria — décadas depois, criaria um dos Cineclubes mais longevos da cidade.

Elegância e Vivência

Os cinemas em Florianópolis nesse período tinham uma série de peculiaridades, perdidas com as salas atuais. Não necessariamente boas, mas para os pesquisadores da área demarcaram o espírito de um tempo, que eles mesmos viveram. “A época do Roxy mesmo eu peguei, toda tardinha de domingo tava lá, feliz da vida, trocando gibis”, conta Ramos, que era frequentador assíduo. Osni também lembra disso, pois tinha dias que ele “chegava às duas horas e só saía às seis. Todo mundo ia ao cinema, era a diversão mais popular, mais barata que se teve.”

As sessões, de fato, não eram como hoje. O Ritz teve de 1943 e 1962 a hoje bastante discutível Sessão das Moças, onde mulheres pagavam meia e só eram permitidos filmes de cunho “romântico”. Havia também os filmes seriados — “um tipo de filme” explica Osni, “que a ação em determinado tempo interrompia. Sempre que o mocinho ou a mocinha, o herói, estava numa situação de perigo, desmaiado, o carro vinha TSCHK! Na próxima semana, todo mundo vinha ver como se escapou.” Foram feitos pelos grandes estúdios estadunidenses majoritariamente até 1956, quando foi produzido 'Pioneiros do Oeste' pela Columbia.



Osni mostra foto de filme russo distribuído pela companhia Tabajara Filmes nos anos 60. A partir das fotografias, Osni e outros desenhistas produziam os cartazes

(Foto: Gabriel Volinger)

Por falar em anos, também perguntamos a Osni se demorava muito para os filmes passarem aqui. Ele responde que “não demorava muito não”. Essa “não-demora” normalmente era de um a dois anos depois que o filme era lançado no país, com algumas exceções — ele lembra de 'Os Dez Mandamentos', filme épico de Cecil B. DeMille que só veio a passar em Florianópolis em 1960, quatro anos depois da premiére no mundo. Se o tempo de exibição não era nem de longe universal, que dirá o do filme. O exemplar de 'Os Sete Samurais' exibido na premiére do Cine Central de Darci Costa, por exemplo, tinha pouco mais de duas horas, pouco comparado às três e vinte e sete do original japonês.

Mesmo com essas diferenças de tempo impensáveis hoje em dia, havia para Osni uma maior identificação com os atores das tramas. “No cartaz, a gente podia botar o nome dos artistas DESTE TAMANHO e o do filme lá embaixo”, comenta, que fazia cartazes a partir do procedimento padrão de cinco fotografias entregues pelas distribuidoras. “O pessoal vinha e ‘ah, tal ator', filme é bom!”

O filme podia até ser bom mesmo, mas as máquinas de exibição, nem sempre… “O Brasil sempre teve a fama de ter os projetores mais mal cuidados, a gente chamava de ‘moedores de carne’”, conta Osni. Junte isso ao fato de que as fitas normalmente eram passadas em outras cidades antes de chegar por aqui. Filmes saíam do trilho ou mesmo cortavam no meio da projeção — ou seja, a fita acabava de se romper em um pedaço. Antes de cada sessão, era praxe conferir justamente essa rigidez da fita e a sequência do filme. Osni ainda tem guardados alguns pedaços desses filmes do período, com fotos de atores dos anos 1950 em tecnicolor — “uma profundidade que nenhuma imagem tem” — e a linha da trilha sonora em destaque. Nas nossas mãos, com leves puxadas, desmancham fácil.

É uma questão do material. No início, os filmes eram de Nitrato de Celulose, um plástico muito menos rígido e altamente inflamável, que pôs fogo em muito cinema mundo afora. Nos anos 50, veio o Acetato de Celulose, menos inflamável e mais resistente, que foi o padrão por algumas décadas. “Hoje a gente quase não vê filme, porque é tudo digital. Mas os filmes que tem são de poliéster. Bota quatro de nós de um lado e quatro do outro que não rompe”, explica. Essa mudança nas tecnologias de exibição era um fator bastante chamativo para audiência dos principais espaços da cidade. Nas  pesquisas feitas há a citação da implantação do Cinemascope, sistema de exibição criado pela 20th Century Fox que permitia uma tela quase duas vezes mais larga que as demais.

Onde ficavam os cinemas de Florianópolis:​


Cinemas manezinhos: uma história — Parte 2: Clubes em Cartaz

Cinemas manezinhos: uma história — Parte 3: Decadência e Atualidade