Florianópolis, capital que dorme cedo

Florianópolis, capital que dorme cedo

Escrito em 13/05/2019
AlunosJOR Jornalismo UFSC


No caminho contrário ao das grandes cidades do país, Floripa segue em ritmo de interior.


Ilha da Magia, meio milhão de habitantes, capital de Santa Catarina, sede do maior campus da Universidade Federal do Estado. A faixa etária com mais registros no censo 2010 de Florianópolis é a de 20 a 29 anos. Gente jovem, com vontade de aproveitar a noite e tudo que ela tem a oferecer, mas não por aqui. Ilha da Magia, meia-noite de sexta-feira, bares fechando, últimos ônibus deixando o terminal, pessoas se amontoando nas ruas para poder “estender o rolê”, vizinhos com a mão no telefone para discar o 190.

Segundo a Polícia Militar, mais de 80% das denúncias recebidas pelo Centro de Operação da PM (COPOM) até março de 2018 foram de perturbação do sossego, previsto na lei complementar do município nº 003/99 que proíbe qualquer forma de perturbação ao bem-estar público, ruídos, vibrações e sons de qualquer natureza após as 22h.

Descumprir a medida é punível pelo código penal em todo território brasileiro, por isso, aqueles que gostam de aproveitar a noite buscam bares e casas noturnas. O que é movimento natural na maioria das capitais, torna-se bastante limitado na capital catarinense, onde a área central e porta de entrada da cidade limita o funcionamento desses estabelecimentos das mais diversas formas: com burocracia, falta de planejamento urbano e um ineficiente transporte público.

Historicamente o centro de Florianópolis não se comporta como um encontro de serviços e acontecimentos como em outras capitais. A falta de planejamento urbano da cidade fica ainda mais perceptível durante a noite, quando é preciso escolher um único lugar para aproveitar, planejando a hora da chegada, pois tudo lota rápido devido a falta de opções, e a hora de saída, já que os horários de ônibus são limitados. Atualmente a capital conta com cerca de cinco casas noturnas mais frequentadas no centro, que territorialmente brigam com os prédios residenciais. Não é uma questão de escolha, a cidade não foi planejada com divisões para área comercial mista, o que resulta na concentração de muito movimento em algumas regiões centrais e total esvaziamento em outras.

 


De acordo com o Código de Posturas Municipais do Plano Diretor de Florianópolis, fica a cargo da cidade estabelecer acordos para horários de funcionamento, assim, bares que dividem espaço com prédios residenciais tem o limite até 00h, e em bares mais afastados é possível conseguir alvará até as 2h. As casas noturnas de Florianópolis podem funcionar, conforme o alvará, até as 4 da manhã, mas quando o relógio marca 4:00 todo mundo precisa estar na rua. Para os sócios da casa noturna Treze e do bar No Class, André Nogueira e Felipe Stahnke, respectivamente, a regra não prejudica apenas no entretenimento de quem quer continuar na noite, mas também a segurança.


“A gente já pediu pra aumentar o alvará, mas até agora nada, sem justificativa. Ajudaria na questão do barulho e seria mais seguro, porque a casa tá cheia, 4 horas todo mundo tem que sair de uma vez só, aí junta gente aqui na frente pra pedir uber, ‘pra’ prolongar o ‘rolê’ ficando na rua, o que faz mais barulho do que se o pessoal pudesse ir saindo ao poucos ou aproveitar mais uma hora de festa dentro da casa, sem risco de assalto”, explica André.

O horário de funcionamento não é prejudicial apenas para os consumidores, mas também para quem trabalha na casa devido aos limitados horários do transporte público da cidade. As linhas do Consórcio Fênix, monopólio do transporte urbano da capital, param de operar em média às 00h no caso do TICEN — Terminal Integrado Central, e entre 20h e 22h na região metropolitana. Os ônibus só voltam para as ruas a partir das 6 da manhã, assim, os funcionários que não possuem transporte individual, precisam ficar aguardando dentro do Treze.


Para a doutora em urbanismo pela Universidade Paris 4 — Paris-Sorbonne, Margareth Afeche, não existe interesse da prefeitura para que os problemas de planejamento urbano da cidade sejam solucionados, dando assim continuidade aos interesses privados que verticalizam moradias, limitam a mobilidade e proíbem o uso do espaço público de forma confortável e convidativa.​


“É isso que dá a vitalidade da rua, se o bar é aqui e a padaria é ali, a rua vive movimentada, não estou te dizendo que não se deve ter áreas estritamente residenciais, mas se você quer ela revitalizada, essas atividades, essas relações da parte de baixo com a rua é fundamental”.

Margareth ainda fala sobre a falta de ligação de diferentes partes centrais de Florianópolis, como a Beira-Mar Norte, região essencialmente voltada para o mar, que se tornou área estritamente comercial devido a especulação imobiliária: “Vamos pensar a beira mar norte, se toda a parte de baixo da beira mar norte fosse de bares, você teria uma enorme vida noturna, por que que não tem? Porque é tudo residencial. Porque tem a grelha do muro e acabou. Quer dizer, você não tem nenhuma relação com a rua.”

De fato a capital não é planejada para a ocupação do espaço público. As calçadas da cidade raramente seguem as recomendações e exigências do plano de mobilidade. E muitas são usadas como estacionamento, fazendo com que a cultura do transporte individual fique ainda mais forte. É raro, com exceção dos locais de concentração de bares, ver qualquer atividade ou lazer acontecendo nas calçadas. Muito mais raro ver praças sendo ocupadas para o “estar”, virando espaço de concentração para moradores de rua. Florianópolis é uma capital que não pensou em parques centrais.

Uma das únicas tentativas, o Parque Metropolitano Francisco Dias Velho projetado em 1977, não cumpriu a proposta inicial de agrupar diversas atividades de lazer, sendo então desmanchado com o passar do tempo, transformado em camelódromo e atualmente serve como estacionamento para ônibus. O local também concentra moradores de rua e usuários de drogas, principalmente à noite, em um espaço que poderia ser revitalizado para convívio urbano e integração da vida noturna, se existisse interesse do poder público.

Para Margareth, nunca houve um planejamento urbano de continuidade para Florianópolis, a cada novo governo, outros interesses precisam ser atendidos “o centro especificamente merece uma crítica mais contundente, porque há uns 15 anos atrás nós (Universidade Federal de Santa Catarina — UFSC) participamos de um projeto para revitalização do centro que foi sistematicamente boicotado pelo IPUF (Instituto de Planejamento Urbano de Florianópolis). Eu já trouxe diversos arquitetos de diferentes lugares do mundo aqui e eles se escandalizam com o centro urbano de Florianópolis”.

O artigo nº2 do plano diretor o caracteriza como um pacto para organizar e melhorar o território em prol da qualidade de vida de toda a população. Em contrapartida, este mesmo plano diretor está em discussão desde 2014, e sua última revisão foi realizada em maio de 2018. O plano original prometia entre outras medidas, a construção de complexo de lazer no Centro-sul, a recuperação do centro histórico da cidade e o transporte público como prioridade. A revitalização do Largo da Alfândega de fato começou, mas não segue um planejamento integrado, é pontual. Foram prometidos também um plano municipal de mobilidade urbana, a implementação de ciclovias e construção de corredores de ônibus. Até o momento, nenhuma dessas medidas foi cumprida.



Bares no centro de Florianópolis, em uma sexta-feira à noite






Essa percepção sobre o lugar onde vivem e transitam afeta diretamente a forma como a população vive a cidade. Se o espaço público não é seguro e confortável, as pessoas buscam os bares e casas noturnas. Se esses fecham cedo, as pessoas se concentram em maior grupo nas ruas de áreas residenciais para aumentar a sensação de segurança. Os vizinhos reclamam de barulho, a polícia é acionada, e todo final de semana o ciclo se repete. Quem insiste em ficar na noite precisa morar perto ou usar aplicativos de transporte individual como o Uber, exibindo mais uma característica pouco democrática da cidade. Quem mora fora da Ilha vai ter que pagar mais caro pelo ônibus, não tem direito a integração da passagem, além de passar horas em ruas desertas esperando para voltar pra casa.

Mesmo com todas as adversidades e limitações impostas pela falta de planejamento urbano e de mobilidade, as pessoas ainda querem viver a cidade, querem aproveitar a noite e ocupar as ruas. Os jovens adultos dão um jeito, levam a bebida para os locais onde se sentem seguros, se encontram em postos de gasolina, aproveitam as baladas e estendem a madrugada da forma que é possível. Os homens desfrutam o privilégio de se sentirem mais seguros, quem tem uma situação financeira melhor utiliza o Uber. Afinal, o que a população mais produtiva e disposta deseja é unânime, que a capital, assim como eles, fique acordada até tarde, e revele noite a fora toda a magia da ilha.



Ouça o que as pessoas acham da vida noturna de Florianópolis:


Reportagem por: Aline Ramalho e Camila Saplak.  Fotos por: Camila Saplak.