Cultura fabricada da “Alemanha sem passaporte”

Cultura fabricada da “Alemanha sem passaporte”

Escrito em 13/05/2019
Carla Mereles & Lívia Schumacher Corrêa

Blumenau investiu na construção de tradições e costumes germânicos para atrair turismo


Pessoas vestem trajes típicos da região sul da Alemanha e chapéus com bandeiras do país, têm nas mãos canecos de vidro com chopes de diferentes estilos e consomem especiarias da culinária alemã, como batatas recheadas e Spätzle. As fachadas do comércio no Parque Vila Germânica imitam construções enxaimel e as bandas, cujos músicos também vestem as tais roupas alemãs, tocam canções animadas em ritmo de marchinha nos pavilhões. Esses elementos constituem parte do cenário encontrado na Oktoberfest de Blumenau, festa que acontece no mês de outubro desde 1984 e completa sua 35ª edição em 2018.

Depois de Blumenau ter sido arrasada pelas enchentes de proporções avassaladoras de 1983 e 1984, a cidade precisaria de valores significativos para se recuperar econômica e socialmente. Assim teria surgido a Oktoberfest, com a finalidade de gerar recursos para a reconstrução da cidade e a restituição da alegria dos seus cidadãos — mas essa não é a versão mais assertiva de como e por que foi criada. De fato, a arrecadação da festa foi crescendo com o passar dos anos, com o aumento da estrutura e com sua popularização; em 2017 o lucro foi de 12 milhões de reais, de acordo com a Secretaria de Turismo de Blumenau, órgão responsável pela sua realização.




Recepção: Em vez de “eu amo Blumenau”, a frase em sua versão alemã deixa marcas na cidade. Ao fundo, a Central de Atendimento de Turistas — uma das casas enxaimel que ainda preserva as técnicas autênticas dos primeiros moradores blumenauenses. (Foto: Carla Mereles)

Vale Europeu

A germanidade — definida por manifestações culturais de inspiração ou efetivamente germânicas — é um dos pilares da publicidade acerca de Blumenau. Junto com outros 18 municípios, a cidade compõe a Região Turística do “Vale Europeu” brasileiro. A fragmentação dos estados em regiões foi uma proposta do Ministério do Turismo, na qual cada espaço turístico deveria se tornar região autônoma de decisões relacionadas ao tema. O termo “Vale Europeu” foi sugerido por entidades representativas estaduais — prefeitura, secretarias de turismo, associações — e acatado oficialmente em 2004. Ao todo, são 328 Regiões Turísticas no Brasil — 53 no Sul e 12 em Santa Catarina. Com relação às questões publicitárias propriamente ditas, é a Santur, órgão do Governo Estadual vinculado à Secretaria de Turismo, Cultura e Esporte (SOL), que cuida da promoção das cidades catarinenses.

Com os novos nomes em mãos — “Caminho dos Príncipes”, para a região de Joinville; “Costa Verde e Mar”, para a região de Balneário Camboriú, entre outros -, a renovada publicidade surgiu. A Santur criou encartes, livretos de propaganda e até “placas de sinalização turísticas” nos trechos estaduais das BRs, que começaram a ser instaladas a partir de 2008, segundo o presidente do órgão, Valdir Walendowsky. Elas usam os nomes regionais para alertar: caso a pessoa veja “Vale Europeu” na estrada, já sabe que está chegando em terras próximas de Blumenau. No site oficial de turismo de Santa Catarina, Blumenau é classificada como um local que “faz reverência às suas origens em cada canto da cidade: nas casas, nos parques, nos monumentos”.

Para tratar das questões de cultura institucional da cidade, existe a Fundação Cultural de Blumenau (FCBlu). O órgão recebe por ano 4,1 milhões de reais da Prefeitura Municipal, além de obter recursos por outros meios, como convênios, emendas parlamentares, doações e projetos. O dinheiro é dividido conforme as necessidades das mais diversas organizações previstas no Plano Municipal de Cultura. Segundo o diretor da FCBlu, Rodrigo Ramos, todos os tipos de manifestação recebem o mesmo tratamento e importância. “Não temos distinção para esta ou aquela representação étnica. A questão europeia é um traço da colonização, não temos como ignorar algo que está ligado com a história de Santa Catarina, em especial, na região”.



(Foto: Juliana Kozoski / Unsplash)

O slogan “Blumenau — Alemanha sem passaporte” foi estampado em outdoors no Vale do Itajaí como fruto de iniciativas da prefeitura para atrair turistas em 2014. A campanha foi fortemente criticada pela população. O jornalista Francisco Fresard escreveu o seguinte em seu blog, o Blog do Pancho: “assim que vi esse outdoor pensei que fosse brincadeira de mau gosto. Não é.” A jornalista Magali Moser, escreve em sua dissertação: “houve uma repercussão muito negativa, embora muitos possam também ter silenciado sobre essa percepção, a de uma cidade com passaporte não brasileiro”. O historiador Viegas Fernandes da Costa repudiou a iniciativa na coluna mensal no Jornal de Santa Catarina. Sob o título “Blumenau tem os olhos na nuca”, fez relevantes críticas e apontou como a diversidade é historicamente presente na construção da sociedade blumenauense, mesmo que isso seja negado repetidamente. Mesmo assim, no ano seguinte a prefeitura emplacou nova propaganda, “Blumenau — o Brasil de alma alemã”, que foi usada em divulgações da Secretaria Municipal de Turismo.


“Blumenau tem os olhos na nuca” — Viegas Fernandes da Costa

Quanto às propagandas institucionais, a jornalista Magali afirma que essa é uma construção que se adota. A dissertação de mestrado dela analisa a participação da imprensa na imposição da identidade germânica em Blumenau e, dentre várias outras questões, examina as propagandas da Oktoberfest de 1984 a 2015. Destaca o reforço a estereótipos, ao projetar nas campanhas pessoas brancas, geralmente loiras e de olhos claros. Na única vez em que apareceu uma pessoa negra no cartaz, em 2011, o tom preconceituoso foi corroborado na frase “aqui todo mundo vira alemão”. “Nossa cultura é fruto de mistura. Querer buscar autenticidade em cultura alemã… Eu não sei se isso é possível”, reflete a jornalista e pesquisadora.



(Foto: Carlos Ibañez / Unsplash)

Construção da germanidade

Como uma cidade pode ser vendida? Essa pergunta foi feita pelos comerciantes de Blumenau. Desde 1910, uma das soluções encontradas para isso foi a confecção de cartões postais da cidade, quando não havia políticas públicas de incentivo ao turismo e ao comércio. A questão entrou na pauta da prefeitura nos anos 1960, quando a cidade começou a ser vista como uma potência turística. A primeira propaganda foi publicada em 1968 na revista

Seleções, que tinha circulação expressiva na época. “Adivinhe que país é este” é a frase que inicia o encarte, seguida por fotos de Blumenau, comparando-a a outros países como Suíça, Escócia, Áustria e Alemanha. Por fim, conclui: “faça a sua viagem ao exterior sem sair do Brasil”.

A propaganda funcionou para atrair visitantes em busca de especialidades feitas na cidade, como cristais e conjuntos têxteis de cama, mesa e banho. Havia o desejo de que os turistas permanecessem na cidade e, então, foi feita a segunda pergunta: como fazer com que as pessoas fiquem em Blumenau? A resposta foi rápida: oferecendo lazer.



Em 1968, a propaganda abaixo era veiculada na revista Seleções, na época popular em Blumenau. O conteúdo comparava a cidade catarinense com países europeus, abordagem que ainda hoje é utilizada na publicidade da região. (Foto: Carla Mereles)

O então Conselho de Turismo, formado por pessoas influentes na cidade, decidiu por criar lugares e experiências que remetessem à cultura germânica, tradicional do sul da Alemanha — como a Baviera — , embora os colonizadores de Blumenau e da região tivessem vindo da região que hoje corresponde ao norte do país. Buscou-se criar infraestrutura que lembrasse a Baviera, tais como restaurantes de culinária típica alemã e um moinho de vento na beira do Rio Itajaí-Açu, além de criar políticas de incentivo fiscal para a arquitetura em estilo enxaimel.

Ainda em busca de maneiras para atrair pessoas à cidade a partir da transmissão da cultura alemã e costumes germânicos, em 1976 o Conselho de Turismo pensou em fazer uma festa de outubro em Blumenau — tal qual a Oktoberfest de Munique, na Alemanha. Com referência à festa homônima, para realizar os desfiles da comemoração, foram criados grupos folclóricos — como o “25 de julho” — que aprenderam sobre as músicas e danças com um conjunto gaúcho que cultivava essa tradição, e passou-se a usar trajes típicos. Os clubes de caça e tiro, existentes em número expressivo, foram convidados pelo então Secretário de Turismo a participar do evento.

A Oktoberfest já havia sido idealizada e planejada para acontecer no início dos anos 1980, mas foi postergada por conta da enchente de 1983. No ano seguinte, novamente estava tudo preparado para a festa acontecer quando houve outra enchente, ainda maior que a anterior. Em 1984, depois de se recuperar dos estragos na cidade, acontecia a primeira edição da Oktoberfest em Blumenau. Isso explica a versão popular de que a festa teria nascido com a finalidade da reconstrução.



(Foto: Roman Kraft / Unsplash)

Transposição de imaginário

“É a invenção da tradição”, reflete a historiadora e diretora do Arquivo Histórico de Blumenau, Sueli Petry. Não havia grupos folclóricos de danças e música, mas existiam corais nos clubes e sociedades formadas pelos colonos, “que eram as salas de visita na época da colonização”, de acordo com Sueli. Ela conta que não se usavam trajes típicos, nem em festividades, já que o próprio colonizador, Hermann Blumenau, escreveu no Guia de Instrução de Imigrantes enviado à Alemanha um aviso de que fazia muito calor na região e o veludo das roupas de festa não seria adequado. Não era usual comer joelho de porco, marreco recheado ou maçã caramelizada — que sequer é encontrada no Vale do Itajaí em razão do clima.

Houve a transposição plástica de tradições germânicas. “Os colonizadores, vindos da região norte da Alemanha, não tinham esses costumes e, portanto, quando migraram em 1850, não trouxeram as práticas, culinárias e festas que vemos hoje na Oktoberfest em Blumenau”, explica a historiadora Sueli. Por outro lado, trouxeram outros costumes germânicos, como o espírito de associativismo, observado nas muitas associações de bairro e de empresas, e também a solidariedade que se expressa em momentos de dificuldade coletiva, como durante as enchentes, em que a sociedade se mobiliza rapidamente para amparar e prestar assistência.


Arquitetura de fachada

Não há como ignorar as casas em estilo alemão por toda Blumenau, com tijolos à vista e vigas aparentes que destoam dos prédios urbanos. O enxaimel é uma técnica construtiva que foi trazida para o Vale do Itajaí pelos povos germânicos, em sua maioria da região norte do país europeu. Em resumo, o enxaimel, ou “Fachwerk” — treliça, em alemão — é como um esqueleto, no qual peças individuais de madeira são encaixadas umas nas outras e, depois, o vão entre elas é preenchido com tijolos ou taipa.

Em Blumenau, pela umidade característica da cidade, a base das construções era geralmente elevada do solo, adaptação importante para o sucesso da técnica em terras brasileiras. Além do mais, quando a maioria das casas foi construída na cidade, majoritariamente em áreas rurais, eram feitas com pedras do próprio local, facilmente transportadas. Por isso, o processo de estruturação se tornava mais simples: bastavam quaisquer pedaços de madeira para compor a estrutura, que condizia com a necessidade dos moradores.

Foi pensando no acervo da cultura arquitetônica que o carpinteiro blumenauense Paulo Volles criou o Levantamento de Casas Enxaimel de Blumenau/SC, entre agosto de 2014 e março de 2015. Em sete meses, ele fotografou, mediu e catalogou 226 casas com a técnica construtiva mencionada espalhadas pela cidade, concentradas principalmente no bairro Vila Itoupava, região norte. Só lá, são 99 residências com o método germânico autêntico. A pesquisa foi uma das ganhadoras do Prêmio Rodrigo Melo Franco de Andrade (PRMFA), do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

Entretanto, ao longo da década de 1980, a técnica enxaimel se desvirtuou da proposta original, que era facilitar o acesso à moradia da população. A gestão do então prefeito Renato Vianna estipulou incentivos fiscais para os prédios que apresentassem “estilos arquitetônicos típicos conhecidos como ‘Enxaimel’ e ‘Casa dos Alpes’”, como consta na Lei nº 2262/77, complementar ao Plano Diretor de Blumenau que havia sido recém criado. Assim, surgiram as casas “enxaimeloides” ou “enxaimelosas”, como apelida Christian Krambeck, professor de arquitetura e urbanismo da Fundação Universidade Regional de Blumenau (FURB).

As construções em falso enxaimel foram estimuladas pela prefeitura para criar alegorias estéticas por Blumenau, já que a cidade precisava de atrativos turísticos para manter a economia. Por isso, as fachadas de edifícios institucionais, de bancos e até do Parque Vila Germânica — importante zona turística urbana — foram montadas no estilo estipulado pelo Plano Diretor, mas de forma ilustrativa, sem o método original de construção. “No primeiro momento, tinha mais coerência”, afirma Christian. “A técnica era ligada à sobrevivência, a simplificar estruturas. Não tem lógica ser uma cópia de outro período que não faz mais sentido”, acrescenta, ressaltando que vê na arquitetura uma forma não só de exprimir métodos de composição, mas também de mostrar a realidade na qual se inserem as pessoas.