Mercados de bairro concorrem com grandes redes

Mercados de bairro concorrem com grandes redes

Escrito em 21/11/2018
Catarina Duarte & Ilana Cardial


Impessoalidade de hipermercados substitui tradição de cadernetas e proximidade com moradores


Quando batia o sinal do Colégio Intendente José Fernandes, na praia dos Ingleses, em Florianópolis, Maurileide Santos contava as moedas do bolso para comprar chicletes, chocolates e balas Soft no caminho para casa. Marcelo Rubi, anos depois, fazia o mesmo percurso de chão batido para buscar broa de polvilho na venda do Seu Belo — como era conhecido Belarmino Sagaz. Para Luiz Carlos Cardozo Farias, as idas eram ocasionais durante os 10 anos que morou no Norte da Ilha. De uma forma ou de outra, o Supermercado Sagaz foi referência para milhares de pessoas que passavam pela esquina da Rua João Gualberto Soares com a Intendente João Nunes Vieira.

Após décadas de funcionamento, o Sagaz encerrou suas atividades no dia 15 de setembro deste ano. A notícia viralizou através de uma publicação de Maycon Oliveira, vereador em Florianópolis pelo Partido da República (PR) e neto dos primeiros donos Belarmino e Aldair Sagaz. Na rede social, foram cerca de 2 mil interações e 300 comentários com relatos lamentando o fim do mercado.

Há 30 anos, a administração era feita por Valter Sagaz. A pintura laranja, a porta de aço, típica de estabelecimentos comerciais, e o quadro de anúncios classificados marcavam a fachada. Entre notas de cães perdidos e ofertas de aluguéis, pessoas se reuniam em frente ao mural que se tornou referência para vendas e comunicados do bairro. Por trás dos papéis colados na vidraça, Valter sentava-se ali para tratar das questões financeiras. Além de seu pequeno escritório, o comércio contava com três balaios e dois caixas. O título passou de “mercado” para “supermercado” durante sua gestão, quando a mercearia foi dividida em setores como padaria, açougue e bancada de frutas e verduras, e começou a contratar funcionários fora da família.

Frequentado por nativos da ilha, o Sagaz oferecia desde a década de 50 a possibilidade de as compras serem registradas em caderneta. Os fiéis clientes de Belarmino e, depois de seu filho, Valter Sagaz, podiam levar produtos e acertar as contas depois. Era dessa forma que Sônia Silva fazia as compras para sua mãe e seus oito irmãos. Durante os seis meses em que seu pai pescava no Rio Grande do Sul, sua família anotava os alimentos com os quais abasteciam a mesa nesse período. “Os pais iam para lá pescar e deixavam as mães grávidas. Quando voltavam, as crianças já estavam até grandes”, detalha ela. De acordo com Sônia, ali vendiam de tudo. “Até acostumar vai ser difícil”, lamenta-se.

O Sagaz é um dos 134 supermercados na Grande Florianópolis, junto a 1.251 minimercados, mercearias e armazéns e nove hipermercados, de acordo com o Datasebrae. “Nós percebemos um movimento de grandes mercados surgindo desde 2003”, comenta o coordenador técnico da carteira de comércio varejista do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas em Santa Catarina (Sebrae/SC), Jefferson Reis Bueno. Isso explica, em boa parte, as alterações que vêm ocorrendo no perfil do comércio varejista da região, inclusive com o fechamento de tradicionais comércios de bairro. “Não são só os minimercados que são afetados. Um hipermercado tem açougue, panificadora, pet shop, peças para carro e muito mais”, exemplifica.

A 100 metros do Sagaz, com área aproximadamente quatro vezes maior, há o Brasil Atacadista. O estacionamento, o tamanho das prateleiras e a quantidade de funcionários e corredores marcam as diferenças entre os dois comércios logo à primeira vista. Por seus 40 caixas, passam cerca de duas mil pessoas diariamente, segundo o representante de Marketing da unidade, Felipe Waine.

Pertencente à rede Imperatriz, que inaugurou o sistema de autoatendimento em Santa Catarina, o atacadista apresenta essa tecnologia como um de seus diferenciais. Em contraposição à tradicional caderneta e às relações cultivadas entre nativos da ilha, nesta outra esquina o cliente tem a possibilidade de escolher os produtos, passar suas compras, pagar com cartão de crédito e ir embora sem interagir com qualquer outra pessoa. A inovação utiliza o leitor de código de barras para verificar os preços das mercadorias e, para evitar fraudes, cada item deve ser pesado ao fim da compra.

O diferencial do pequeno mercado, segundo a comerciante e moradora do bairro Cristiana Oliveira, vinha do público fiel que tinha no local um espaço de socialização, um ponto de encontro em que as pessoas se reconheciam. No novo mercado, o nome dos funcionários é conhecido apenas lendo seus crachás azuis. Já os dos clientes, podem ser anunciados nos autofalantes em caso de carros mal estacionados ou crianças perdidas. Proprietária da Ponto Alto Aviamentos e Tecidos e mestre em Antropologia pela Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC), Cristiana trabalha há 20 anos na loja que fica em frente ao Sagaz, na esquina oposta, da Travessa Duartina Silva Vieira. Conheceu os filhos e netos de Valter, assim como ele conheceu os dela. No último ano, notou uma queda no movimento habitual do mercado após a construção da rede Brasil Atacadista.

“Você já não tem mais relação. Você é um indivíduo, não uma pessoa”, explica Cristiana, enquanto atendia um cliente. Ela pegou a caixa recheada de zíperes, remexeu os mais variados tamanhos do produto, escolheu o de cor branca e fez sinal para o próximo cliente aproximar-se. “Diga, seu José, o que precisa hoje?”, perguntou sem hesitar. “Eu não tenho, mas vê ali na Dona Maria.”

Um ano após a inauguração do Brasil Atacadista, Diego Ribeiro, dono do Chaveiro Norte da Ilha, localizado ao lado do antigo mercado, afirma que também notou a baixa no número de clientes do Sagaz. Segundo ele, só os nativos continuaram indo ali. Ainda assim, o fim do mercado não foi diretamente influenciado pela concorrência, como acontece com outros estabelecimentos. Do quintal de sua casa, com os olhos marejados, Valter Sagaz prefere não falar sobre o assunto com a equipe do Zero: “Acabou, acabou”.



Proximidade: Em mercados menores, como o Raithz, o número reduzido de caixas aproxima o freguês do funcionário. O balcão com balas e chicletes é típico nesses estabelecimentos. (Foto: Mariany Alves Bittencourt)

A luta dos pequenos

Se parte da fidelidade dos clientes de mercados de bairro se dá pela facilidade de acesso e filas menores, as grandes empresas vêm agindo para competir na área. Estabelecimentos como o Carrefour Express e Minuto Pão de Açúcar presentes no estado de São Paulo, por exemplo, são denominados lojas de vizinhança. “É uma questão de tempo até que esse modelo chegue em Santa Catarina. Implantam uma loja com 300 ou 400 m², contratam um gerente conhecido do bairro e, se fantasiando de loja menor, [as redes internacionais] visam abocanhar essa fatia do mercado”, explica Jefferson, do Sebrae/SC.

O associativismo aparece como uma importante forma de resistência de micro e pequenas empresas a esse movimento. Criando uma rede, diferentes comércios podem se unir, aumentando o poder de negociação e diminuindo o valor de compra das mercadorias. “É criada uma marca guarda-chuva conjunta.

Assim, em vez de uma empresa comprar 20 caixas, serão 20 empresas comprando 200 caixas”, detalha Jefferson. Em Santa Catarina, são mais de 80 grupos de micro e pequenos empresários vinculados ao Sebrae. No país, esse número salta para mais de mil redes, sendo 30% de mercados. São entendidas como microempresas as que têm faturamento de até 360 mil reais por ano, enquanto empresas de pequeno porte faturam até 4,8 milhões no mesmo período.

Outro tipo de associativismo é o proposto pela Associação Catarinense de Supermercados (Acats). Ainda que não envolva redes diretas para compra conjunta de mercadorias, a Acats exerce papel institucional por meio de eventos e representação do setor supermercadista no estado. De acordo com a organização, Florianópolis possui 74 estabelecimentos associados, sendo contabilizadas as matrizes e filiais. A distinção entre os pequenos e grandes supermercados é feita pela quantidade de checkouts, equivalentes aos caixas. Os que tiverem até nove checkouts são considerados de menor porte. Passando desse número a categoria já é de supermercado.



Tamanho: A diferença mais evidente entre mercados de bairro e hipermercados é a quantidade de caixas, que nestes últimos pode chegar a 40. (Foto: Mariany Alves Bittencourt)

Caderneta e “atacarejo”

Na Vargem do Bom Jesus, bairro próximo a Ingleses, dois mercados ainda oferecem a tradicional caderneta, porém só aos clientes mais antigos. No Supermercado Raithz, os carrinhos de compra beiram a Rodovia Armando Calil Bulos. A fachada laranja resistiu às obras de duplicação da rodovia, inaugurada em 2015 pelo então governador Raimundo Colombo. O espaço é alugado hoje por dois sócios, Maycon Dal Dosco e Pablo Ricardo Ferreira, que assumiram a administração há cerca de um mês. Maria Bastos, 32 anos, integra a equipe de cinco funcionários, responsáveis pela padaria, açougue e caixa. A caderneta do Raithz é feita em fichas, separadas por ordem alfabética, e, segundo Maria, apenas 15 clientes aindas as possuem. Alguns deles se reúnem aos fins de semana em frente ao comércio. Bebem cerveja, comem salgados e usam o banheiro exclusivo para funcionários.

Do outro lado da rodovia, outro grupo de clientes se agrupa em frente ao mercado, agora no Supermercado Super Norte. Gerenciado pelos irmãos Manuela e Eduardo Delatorre, a rede conta com duas filiais também no Norte da Ilha, no Rio Vermelho e na Vargem Grande, além da matriz. Os clientes antigos, vindos na sua maioria do primeiro mercado administrado em Florianópolis, o Supermercado Gomes, conseguem pagar suas compras somente no final do mês. O serviço exclusivo vem na contramão do que fazem as grandes redes de atacado.

O “atacarejo” é a modalidade de vendas que reúne produtos do atacado e do varejo em um mesmo espaço. A diferença entre os dois é o público-alvo. O varejo tem como seu cliente o consumidor comum, vendendo pequenas quantidades. Já os atacados destinam seus produtos aos consumidores que compram grandes quantias. Isso se dá pelo fato de comercializarem mercadorias vindas direto das fábricas. É o caso do Fort Atacadista. As 30 unidades espalhadas pelos estados do Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Santa Catarina são administradas pelo Grupo Pereira, dono do Comper, que opera em Florianópolis, e do Atacado Bate Forte. Junto com a Havan, rede catarinense de lojas de departamento, o Grupo abrirá uma unidade na Rodovia José Carlos Daux, que leva ao Norte da Ilha. Por anos, o lugar reuniu, durante o verão, dezenas de comerciantes que passavam a temporada no espaço vendendo desde livros até copos decorados. O Ilha Shopping, como era chamado, foi transferido para o km 01 da SC-401, no Trevo de Canasvieiras.